Da redação da PNXT
Outro dia, durante uma conversa sobre marketing, surgiu uma pergunta aparentemente simples: Por que algumas empresas conseguem cobrar muito mais caro oferecendo produtos muito parecidos com os dos concorrentes?
A primeira resposta normalmente é qualidade. Depois pensamos em tecnologia. Design, atendimento, inovação. Tudo isso realmente influência.
Mas quanto mais reflito sobre o assunto, mais percebo que existe algo ainda mais poderoso. As pessoas raramente compram apenas um produto, elas compram aquilo que aquele produto representa. E essa percepção de enxergar o marketing que me chama atenção, porque o mercado não remunera apenas competência.
Duas empresas podem fabricar produtos tecnicamente semelhantes. Dois profissionais podem ter a mesma formação. A mesma experiência. A mesma competência. E, ainda assim, um deles será muito mais valorizado pelo mercado. Por quê?
Porque competência é requisito. Percepção de valor é diferencial. Competência faz você entrar no jogo. Percepção de valor define quanto o mercado está disposto a pagar. Pode parecer injusto. Mas basta observar ao nosso redor.
O mercado raramente remunera apenas quem faz o melhor trabalho. Ele remunera quem conseguiu construir a percepção de entregar o maior valor. Um dos exemplos que mais gosto é o da Lacoste. Há alguns anos, a marca lançou uma coleção especial substituindo o tradicional crocodilo por espécies ameaçadas de extinção.
A quantidade produzida de cada modelo correspondia exatamente ao número estimado de animais restantes na natureza.
Algumas versões tiveram apenas algumas dezenas de unidades. As peças se esgotaram rapidamente. Mas não porque fossem feitas com um tecido diferente. Nem porque fossem tecnicamente superiores. As pessoas compraram exclusividade. Compraram propósito. Compraram uma causa. Compraram uma história que poderiam vestir.
O produto continuava sendo uma camiseta. Mas o significado era completamente diferente. Outro exemplo clássico é a Rolex. Tecnicamente, existem relógios tão precisos quanto. Alguns até superiores. Mesmo assim, poucas marcas conseguem despertar o mesmo desejo.
Porque a Rolex nunca construiu sua comunicação em torno de mecanismos ou precisão. Ela construiu uma narrativa. Conquista, legado, excelência, tempo, reconhecimento.
Quem compra um Rolex dificilmente está comprando apenas um relógio, está comprando aquilo que acredita que aquele relógio comunica ao mundo. No fundo, marketing é exatamente isso, construir significado.
Encantamento
O maior ativo de uma empresa raramente é o produto que ela fabrica. É o espaço que ela ocupa na mente do cliente.
Existe outra empresa que sempre me faz refletir. A Disney. Quando pensamos nela, dificilmente pensamos primeiro em brinquedos ou montanhas-russas. Pensamos em experiência. Em encantamento. Em memórias.
Isso acontece porque a Disney nunca tratou atendimento como um departamento. Transformou atendimento em estratégia. Ela entende que as pessoas esquecem detalhes. Mas dificilmente esquecem como foram tratadas. No final da visita, o cliente leva muito mais do que fotos. Leva uma lembrança emocional. E lembranças possuem muito mais valor do que serviços.
Outro caso interessante é a Nespresso. Ela pegou um produto extremamente comum e o transformou em um ritual. O café deixou de ser apenas uma bebida. Passou a representar design. Tecnologia, elegância, exclusividade, pertencimento.
A empresa não vende apenas cápsulas. Construiu um ecossistema inteiro de valor percebido. Boutiques, máquinas sofisticadas, relacionamento, experiência, comunicação. O produto continua sendo café. Mas ninguém compra apenas café. Compra tudo aquilo que a marca construiu ao redor dele.
Confiança
E nem na indústria vence apenas quem tem a melhor máquina. Depois de muitos anos trabalhando no mercado industrial, aprendi uma coisa interessante. Clientes raramente compram apenas especificações técnicas. Eles compram segurança. Compram disponibilidade. Compram confiança.
É exatamente isso que vejo acontecer na Stäubli. Quem conhece a empresa sabe que desenvolvemos soluções para automação industrial, conectores industriais e máquinas têxteis de alta tecnologia e robôs. Mas, sinceramente, acredito que nossos clientes não escolhem a Stäubli apenas pela tecnologia.
Eles escolhem porque sabem que, quando uma linha de produção não pode parar, confiabilidade faz toda a diferença. Escolhem engenharia. Pelo suporte. Pela presença global. Pela qualidade construída ao longo de mais de um século. No fim, não estamos falando apenas de máquinas ou equipamentos. Estamos falando de redução de risco. De continuidade operacional. De confiança. Perceba a diferença. O produto é uma máquina.
O valor percebido é a tranquilidade de saber que ela estará pronta para entregar exatamente aquilo que prometeu. Em muitas reuniões comerciais ainda encontro empresas tentando convencer clientes mostrando características. Mais tecnologia. Mais funções. Mais desempenho. Mais recursos. Tudo isso importa.
Mas clientes raramente se apaixonam por especificações técnicas. Eles se conectam com significado. É exatamente por isso que algumas empresas disputam preço. Enquanto outras disputam preferência. Existe uma enorme diferença entre essas duas estratégias. E o mesmo acontece com as pessoas !!!
Quantos profissionais extremamente competentes continuam invisíveis? E quantos são lembrados imediatamente quando determinado assunto surge? A diferença nem sempre está no conhecimento. Está na reputação construída. Na confiança. Na consistência. Na capacidade de comunicar valor.
Construir uma marca pessoal não significa parecer melhor do que realmente somos. Significa fazer com que as pessoas compreendam claramente o valor que somos capazes de entregar.
Cópias e marcas fortes
O futuro pertence às marcas que representam alguma coisa. Quanto mais a Inteligência Artificial evolui, mais rapidamente os produtos serão copiados. Tecnologias serão reproduzidas. Processos serão automatizados. A vantagem técnica ficará cada vez menos duradoura.
Nesse cenário, marcas fortes se tornarão ainda mais valiosas. E isso não é apenas uma percepção.
O Edelman Trust Barometer – Brand Trust 2025, uma das pesquisas globais mais respeitadas sobre confiança e comportamento do consumidor, mostrou que 80% das pessoas afirmam confiar nas marcas que utilizam, um índice superior ao nível de confiança declarado em governos, mídia e até empregadores. O estudo também conclui que confiança passou a pesar tanto quanto preço e qualidade na decisão de compra.
Quando li essa pesquisa, uma frase ficou na minha cabeça. As marcas deixaram de competir apenas por participação de mercado. Passaram a competir por relevância na vida das pessoas. Isso explica por que empresas extraordinárias conseguem sustentar margens maiores mesmo quando existem concorrentes tecnicamente equivalentes.
Porque a tecnologia pode ser copiada. Produtos podem ser copiados. Processos podem ser copiados. Mas confiança… Essa leva anos para ser construída. E talvez seja exatamente essa a maior vantagem competitiva da próxima década. Quanto mais estudo marketing, menos acredito que ele seja sobre publicidade. Marketing é economia … porque influencia disposição a pagar.
É psicologia … porque molda percepção. É estratégia … porque diferencia empresas que disputam preço daquelas que disputam preferência. No fundo, marketing é a capacidade de construir significado. E significado é uma das poucas vantagens competitivas que continuam extremamente difíceis de copiar.
Talvez seja exatamente por isso que algumas empresas conseguem vender praticamente o mesmo produto por um preço muito maior. Elas não estão vendendo apenas aquilo que produzem. Estão vendendo aquilo que representam.
Na próxima reunião da sua empresa, experimente fazer apenas uma pergunta. Não pergunte quanto venderam. Não pergunte qual foi a margem. Não pergunte qual foi o market share. Faça uma pergunta muito mais desconfortável.
Se amanhã retirarmos nosso logotipo dos nossos produtos, serviços ou propostas comerciais… os clientes ainda reconheceriam que somos nós?
Porque produtos podem ser copiados. Tecnologias podem ser copiadas. Processos podem ser copiados. Mas a percepção de valor construída ao longo dos anos continua sendo uma das poucas vantagens competitivas realmente difíceis de copiar. E talvez seja exatamente por isso que o mercado raramente remunera quem faz o melhor produto.
Ele remunera quem construiu o maior significado em torno daquilo que entrega. Pois no fim das contas, produtos geram receita. Mas significado constrói valor
