Em pauta

O Líder antes do Líder

Da redação da PNXT 

A qualidade das nossas decisões depende da qualidade da nossa atenção.

Quanto mais refletimos sobre liderança, percebemos que existe algo que acontece antes mesmo do comportamento. E talvez seja justamente ela que determine a qualidade de tudo aquilo que vem depois.  Pois a presença mais difícil não é física. É mental.

Nos últimos anos tenho tido a oportunidade de conduzir workshops de transformação cultural em diferentes países, com equipes de diferentes culturas, idiomas e realidades.

Curiosamente, independentemente de onde estou aplicando, existe um momento que sempre desperta minha atenção. Em determinado ponto do workshop, convidamos todos a praticarem uma ideia extremamente simples.

Be Here Now.

Esteja aqui. Agora.

Parece quase óbvio.

Mas basta observar a sala durante alguns segundos para perceber como isso é difícil.  Os corpos continuam presentes, mas as mentes estão longe. Uma pessoa pensa na próxima reunião.

Outra responde mentalmente um e-mail.  Outra tenta resolver um problema de sua área.  Outra já está preocupada com a viagem da semana seguinte.

Foi justamente observando esse comportamento que comecei a perceber algo que hoje considero uma das competências mais importantes da liderança.

A qualidade das nossas decisões talvez nunca seja maior do que a qualidade da nossa atenção.

E quando analiso Sêneca, chego a pensar que ele talvez estivesse descrevendo o mundo de hoje !!!

Enquanto preparava esta newsletter, voltei a reler alguns trechos de Sêneca, e existe uma ideia que me acompanha há bastante tempo.

Ele dizia que não temos pouco tempo. Temos muito tempo desperdiçado.  Quando lemos essa frase pela primeira vez, é comum relacioná-la à produtividade. Hoje eu a interpreto de outra forma.

Talvez o maior desperdício não seja o tempo.  Talvez seja a nossa atenção. Vivemos na época com maior acesso à informação da história, mas talvez também na época com menor capacidade de permanecer presentes.

Nunca fomos tão interrompidos.

Notificações.

Mensagens.

E-mails.

Redes sociais.

Reuniões.

Urgências.

Tudo parece importante.

Tudo disputa nossa atenção ao mesmo tempo.  E talvez esse seja o maior paradoxo da liderança contemporânea. Temos cada vez mais informação disponível. E cada vez menos espaço para pensar profundamente.

E aí entendo que a liderança começa onde colocamos nossa atenção. Durante esses workshops existe outro conceito que gosto muito de trabalhar e que se torno um mindset central na Stäubli de forma global.

Blue Chip Mindset.

Quando ouvi essa expressão pela primeira vez, imaginei que ela falasse sobre alta performance. Hoje está claro que ela fala sobre estabilidade.

Assim como empresas consideradas blue chips inspiram confiança pela consistência de suas decisões ao longo do tempo, grandes líderes também desenvolvem uma mente menos reativa e mais consciente.

Eles não respondem imediatamente a tudo.  Não porque sejam lentos. Mas porque aprenderam que nem toda urgência merece a mesma atenção.  Nem todo problema exige uma reação imediata.

Nem toda opinião merece energia.  Talvez a maturidade seja exatamente isso.   Escolher onde colocar a própria atenção.  Porque, no final, aquilo que recebe nossa atenção também recebe nossa energia.

E aquilo que recebe nossa energia acaba determinando nossas decisões.  E é interessante que falamos tanto de conhecimento, da economia do conhecimento, mas esquecemos o outro lado, a economia da distração!!

Pois é, uma nova economia … que não é apenas do conhecimento, mas também da atenção. As maiores empresas de tecnologia do mundo disputam exatamente isso.

Nossa atenção.

Quanto mais tempo permanecemos conectados, maior o valor gerado.

Você entendeu a questão?

Administrar o tempo era considerado uma competência importante. Hoje administrar a atenção seja ainda mais importante.  Porque podemos estar uma hora inteira em uma reunião…

…sem realmente estarmos presentes.

Podemos conversar com alguém…

…sem realmente escutá-lo.

Podemos passar um dia inteiro trabalhando…

…sem dedicar alguns minutos ao pensamento profundo.

E decisões importantes dificilmente nascem em mentes fragmentadas.

Curiosamente, quanto mais evoluímos nos conhecimentos da IA, mais valorizo uma competência profundamente humana.

A atenção.

A Inteligência Artificial consegue processar bilhões de informações em poucos segundos.  Mas ela não escolhe aquilo que realmente merece atenção.

Essa continua sendo uma decisão humana.

Talvez o verdadeiro diferencial competitivo da liderança do futuro não seja pensar mais rápido do que a máquina.

Seja escolher melhor onde pensar.

Porque líderes não serão reconhecidos pela quantidade de informações que possuem.  Serão reconhecidos pela clareza com que conseguem enxergar aquilo que realmente importa.

Faz sentido isso para você?

Além disso, existe algo que aprendi conduzindo processos de transformação cultural.  Cultura não muda apenas quando as pessoas aprendem algo novo.

Ela muda quando começam a prestar atenção em coisas diferentes.  Quando um líder passa a ouvir mais.  Quando aprende a observar antes de reagir.  Quando percebe sinais que antes ignorava. Quando cria espaço para que outras pessoas também sejam verdadeiramente ouvidas.

Talvez seja por isso que toda transformação cultural comece por uma transformação de consciência.

Antes de mudar processos. Antes de mudar indicadores.  Antes de mudar comportamentos.

É preciso mudar aquilo que escolhemos enxergar.  Vivemos reclamando da falta de tempo.  Mas talvez nosso verdadeiro problema nunca tenha sido o tempo.

Sempre foi a forma como distribuímos nossa atenção. Porque é ela que determina aquilo que vemos.  E aquilo que vemos determina as decisões que tomamos.

No fim, liderar pessoas talvez seja consequência.  O primeiro líder que precisamos aprender a conduzir continua sendo aquele que existe dentro de nós.

Na próxima vez que terminar uma reunião, faça uma pergunta para si mesmo.

Não pergunte se você falou bem.

Não pergunte se convenceu as pessoas.

Não pergunte se a decisão foi boa.

Pergunte algo muito mais simples.

Durante aquela conversa… eu realmente estava presente?

Porque talvez a qualidade da liderança nunca seja maior do que a qualidade da presença que o líder oferece ao momento que está vivendo.

E talvez seja exatamente por isso que o primeiro líder que precisamos desenvolver continua sendo aquele que existe dentro de nós.

“Toda grande transformação organizacional começa por uma transformação silenciosa: aquela que acontece dentro do próprio líder.”

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